(Publicado no Jornal O Globo do dia 5 de outubro de
2008)
O perdão e a
reconciliação contra a violência
Técnica desenvolvida por padre colombiano ajuda a
superar o ódio e a sede de vingança, após o trauma
(Por Vera Araújo)
Numa manhã ensolarada de sábado, no 9º Juizado
Especial Criminal da Barra da Tijuca, um casal de classe média alta que não
conversa e mal se olha, fica sentado diante do juiz, para discutir uma
desobediência à visitação do filho menor. Bastaram alguns encontros seguindo a
metodologia das Escolas de Perdão e Reconciliação (Esperes) para que no fim de
um mês eles voltassem a se entender e não procurassem mais o Judiciário.
Técnica empregada em negociação com a guerrilha
Criadas em 2000 pelo padre colombiano Leonel
Narvaez, doutor em sociologia por Harvard, a partir de uma experiência no
acompanhamento de tribos africanas nômades em conflito, as Esperes vêm se
revelando um meio eficaz para a cura dos malefícios causados pela violência.
Ele inclusive aplicou a técnica na área rural da Colômbia, em processos de
negociação com guerrilheiros. Segundo a coordenadora Nacional das Esperes no
Brasil, que tem a chancela da Pontifícia Universidade Católica, Andrea Paiva,
pela metodologia das Esperes é possível controlar as emoções, principalmente a
raiva e o desejo de vingança, por meio do perdão e da reconciliação.
— Antes de perdoar uma pessoa, você tem que perdoar
a si mesmo. A reconciliação é a celebração do pacto que a pessoa faz consigo
mesma ou com o seu agressor. A reconciliação, na qual se promove a justiça
restaurativa (cultura da paz pela justiça), não significa que não haverá
punição — explicou Andrea.
Adotando as técnicas das Esperes há cerca de dois
anos, principalmente em litígios de casais e brigas de vizinhos, o juiz titular
do 9oJuizado Especial Criminal da Barra, Joaquim Domingos de Almeida, informou
que o aproveitamento dos cursos foi de 100%. Depois da aplicação da
metodologia, nenhum incidente voltou a acontecer entre os litigantes, quando,
normalmente, eles retornavam com novos conflitos.
— A justiça restaurativa busca a reconciliação, o
convívio social, melhorando o relacionamento interpessoal. As Esperes são
medidas que restabelecem o amor próprio das pessoas. Sai do litígio e
reconstrói uma relação melhor — disse o juiz.
O vice-reitor para Assuntos Comunitários da PUC,
Augusto Sampaio, disse que a instituição abriga as Esperes desde 2005: — A
finalidade é transformar ódio e vingança em paz.
Além do 9º Juizado Especial Criminal da Barra, as
técnicas das Esperes serão aplicadas nas unidades do Departamento Geral de
Ações Socioeducativas (Degase), a partir de um convênio que foi assinado entre
o órgãos e a PUC. O diretor-geral do Degase, Eduardo Gameleiro, disse que ficou
entusiasmado com o método alternativo: — Os cursos vão atingir educadores e 500
adolescentes do Instituto Padre Severino, do Educandário Santo Expedito e da
Escola Santos Dumont, além de seus parentes.
Os cursos das Esperes também estão prestes a serem
adotados em Nova Iguaçu, no Centro de Recursos Integrados de Atendimento ao
Menor (Criam).
O sociólogo Luiz Eduardo Soares, secretário de
Valorização da Vida e Prevenção da Violência do município, acredita tanto na
experiência colombiana que viaja este mês ao país para se encontrar com
Narvaez: — Se funciona na Colômbia com guerra e feridas profundas, há grande
probabilidade de dar certo no Brasil.
Integrante do grupo das Esperes de Niterói, a
psicanalista Carmem Cyrino acredita na cura pelo perdão: — O nosso verdadeiro
inimigo não é aquele que nos odeia, mas aquele que nós odiamos.
Em 2006, as Esperes chegaram a receber menção
honrosa da Unesco, por promover a paz.
X., pedagoga de 45 anos, classe média alta, antes
de fazer dois meses de curso, não conseguia se livrar do trauma de ter sofrido
abuso sexual por parte do pai, dos 6 aos 11 anos: — Não conseguia mais me
relacionar.
Hoje, após ele ter sofrido três acidentes vasculares
cerebrais, sou eu quem cuida dele.
Aprendi a me perdoar e a aceitá-lo como pai.
Como
funciona
A metodologia aplicada pelas Escolas de Perdão e
Reconciliação (Espere) consiste em dez módulos. O primeiro encontro, chamado de
zero, é uma explicação geral do que será o curso, mostrando aos participantes
que não se aprende as lições lendo, mas vivenciando-as.
No primeiro módulo, são realizadas dinâmicas,
iniciando o entendimento do que é o perdão.
Para isso, a Espere desenvolveu a técnica dos três
esses (segurança, sociabilidade e significado da vida), dos três pês (permissão
para entrar no processo, se sentir protegido e potência para a caminhada) e as
quatro dimensões (pensar, fazer, sentir e transcender). No segundo e terceiro
módulos, aprende-se os malefícios da raiva e a perceber que perdoar é a melhor
alternativa na superação do ressentimento e o ódio provocados pelas agressões.
Nos módulo 4 e 5, o participante analisa o agressor
como uma pessoa igual a ele, para, na próxima etapa, traçar o perfil dele. No
sexto, ele desfaz-se da dor e reaprende o sentido da vida. Do sétimo ao décimo,
trabalha-se com a reconciliação.