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O Perdão: porta para a paz mental 
(Robin Casarjian) 

Existem muitas maneiras de definir o perdão, porque o perdão é muitas coisas ao mesmo tempo. É uma decisão, uma atitude, um processo e uma forma de vida. Algo que oferecemos a outras pessoas e algo que aceitamos para nós mesmos.

O perdão é uma decisão, a de ver além dos limites da personalidade de outra pessoa, de seus medos, idiossincrasias, neuroses e erros. A decisão de ver uma essência pura, não condicionada por histórias pessoais, que tem uma capacidade ilimitada e sempre é digna de respeito e amor. O perdão é a opção de “ver a luz da lâmpada e não a tela” escreveu o doutor Gerald Jampolsky, autor de muitos livros sobre o perdão. Em realidade, quando perdoamos é possível que vejamos a tela (identidades baseadas ou condicionadas pelo medo), mas a vemos no contexto da luz que ilumina o núcleo interior de cada um de nós.

O perdão é uma atitude, que pressupõe estar disposto a aceitar a responsabilidade das próprias percepções, compreendendo que são opções, não fatos objetivos.

O perdão é a atitude de optar por olhar para uma pessoa que talvez alguém tenha julgado automaticamente e perceber que na realidade, é algo mais que a pessoa “terrível” ou insensível que vemos. Se alguém nos repreende ou nos falta ao respeito, a reação condicionada poderia se sentir ferido, ameaçado e furioso: “Como pode fazer isso comigo?. Ou: “Como se atreve a falar assim comigo?”. São reações naturais.

Uma conseqüência de compreender que as percepções são uma opção é que ao mudar as percepções, também mudam as reações emotivas. No lugar do homem furioso que você viu te atacar faz cinco minutos, poderá ver agora um pequeno garoto frustrado e assustado. Freqüentemente, é o garoto interior ferido ou assustado da outra pessoa o responsável pela sua falta de delicadeza ou de critério maduro. Quando somos adultos, esse garoto interior ferido vive dentro de nós, caso no decorrer de nossa infância tenha se nos negado o amor, a compreensão e o consolo de que precisávamos. O garoto ferido continua sendo uma força impulsionadora na psique do adulto, até que seja reconhecido e depois curado. O perdão nos capacita a perceber, sob esse comportamento insensível, esse garoto ferido, os condicionamentos passados e o grito pedindo ajuda, amor e respeito.

O perdão é um processo, que exige que mudemos nossas percepções uma vez ou outra. Não é algo que aconteça de uma vez por todas. Nossa visão habitual está obscurecida pelos juízos e percepções do passado projetados no presente. Nisto, as aparências nos enganam com facilidade. Quando optamos por mudar nossa perspectiva por uma visão mais profunda, mais ampla e abrangente, podemos reconhecer e afirmar a maior verdade a respeito de quem somos nós e quem são os demais. Como resultado desta mudança, surgem de um modo natural uma maior compreensão e compaixão por nós mesmos e pelos demais. Cada vez que fazemos esta mudança, debilitamos o monopólio do ego sobre nossas percepções e nos capacitamos para deixar seguir, libertar e esquecer o passado. O perdão costuma ser experimentado como um sentimento de otimismo, paz, amor e abertura do coração, alívio, expansão, confiança, liberdade, alegria e uma sensação de estar fazendo o correto.

O perdão é uma forma de vida que nos converte gradualmente de vítimas de nossas circunstâncias em poderosos e amorosos co-criadores de nossa realidade. Enquanto forma de vida, pressupõe o compromisso de experimentar cada momento livre de percepções passadas, de ver cada instante como algo novo, com clareza e sem temor. É o desaparecimento das percepções que dificultavam nossa capacidade de amar.

Existem muitas pessoas que quando pensam no perdão, acham que é algo que se faz de situação em situação, de raiva em raiva. Se bem que em última instância, seja essencial perdoar a cada situação específica se é que queremos ser livres, curar e ser capazes de avançar, em seu sentido mais amplo é uma maneira de nos relacionar que está sempre presente: clara, piedosa e compreensiva. O perdão nos ensina que podemos estar firmemente em desacordo com alguém, sem precisar por isso de esquecer o nosso carinho. Leva-nos mais além dos temores e mecanismos de sobrevivência próprios de nosso condicionamento, em direção a uma visão corajosa de verdade, oferecendo-nos um novo campo de escolha e liberdade, no qual podemos descansar de nossas batalhas. Guia-nos para onde a paz não é desconhecida. Nos dá a possibilidade de saber qual é nossa verdadeira força.

A idéia de considerar toda manifestação de raiva como um pedido de reconhecimento, respeito, ajuda e amor pode ser um desvio radical em relação à maneira como aprendemos a perceber a raiva e reagir diante dela.

O perdão não está no que “fazemos” e sim na maneira como “percebemos” as pessoas e as circunstância. É um modo diferente de olhar o que está se fazendo e o que foi feito. Independentemente do que cada um escolha fazer, o fato de considerar nossa conduta como um expressão de temor e uma petição de amor e respeito, nos permite adotar uma atitude que não contribua a aumentar o temor e, em conseqüência, que seja mais provável uma resposta verdadeiramente útil. O perdão é definitivamente uma opção sensata e conveniente.

Às vezes tomam-se decisões em nome do perdão quando não se perdoa de fato. É importante não confundir perdoar com negar os próprios sentimentos, necessidades e desejos. Perdoar não significa ser passivo e manter um trabalho ou uma relação que evidentemente não funciona ou nos faz mal. É importante ter bem claros os próprios limites. O que é aceitável para cada um?

Se estivermos dispostos a permitir repetidos comportamentos inaceitáveis em nome do “perdão”, o mais provável é que estejamos utilizando o “perdão” como pretexto para não assumir a responsabilidade de cuidar de nós mesmos ou para evitar fazer mudanças. Em uma situação de trabalho, por exemplo, o perdão não nos exime de resolver o que desejamos fazer, de enfrentar os problemas ou de procurar outro trabalho se o que temos nos faz infeliz. Freqüentemente, os limites entre perdoar e fugir são subjetivos; cada um tem que descobrir qual é qual para si mesmo, sendo totalmente honrado consigo mesmo.

Busca tua verdade em teus sentimentos mais instintivos e escuta o teu coração.
 

Perdoar-se a si mesmo: o desafio

Perdoar-se a si mesmo é provavelmente o maior desafio que podemos encontrar na vida. Em essência, é o processo de aprendermos a nos amar e aceitar a nós mesmos “aconteça o que acontecer”.

No entanto, existe uma enorme resistência e perdoar-se a si mesmo, já que, como qualquer outra mudança importante, é uma morte. Morre o hábito de nos considerarmos pequenos e indignos, morre a vergonha, a culpa e a autocrítica. “Estou envergonhado de ter engordado tanto”, “Sempre me sentirei culpado por não ter me despedido das pessoas”, “Deixarei de me sentir culpado se as coisas se resolverem”, “Perdoar-me-ei quando ela me perdoar”. Quantas vezes a disposição de nos amarmos e aceitarmos dependeu de que as circunstâncias fossem diferentes de como na realidade são? Que críticas de nós mesmos teremos que deixar de lado para que possamos nos perdoar?

O objetivo do perdão é lançar luz sobre os enganos, temores, julgamentos e críticas que nos vem mantendo presos, no papel de nosso próprio carcereiro. É descobrir a opção de renunciar a esse cruel trabalho, para poder assim nutrir toda a verdade a respeito de quem somos.

Perdoar-se a si mesmo é um fabuloso nascimento. É inerente aos momentos nos quais temos a experiência direta da compaixão, do amor e da glória de nosso EU superior, mais além de toda definição.