FAÇA AS PAZES COM VOCÊ
(por Mariana Motomura)
Perdoar não é só questão de
generosidade. Nem é fácil. Quando a gente consegue, fecha uma ferida, sai
fortalecido e reencontra o equilíbrio emocional.
A
história daquela senhora sempre me impressionou. O marido a abandonou, deixando
para trás uma casa cheia de contas para pagar e dois filhos pequenos. Ela podia
ter se descabelado, entrado em depressão ou deixado a peteca cair com aquela
responsabilidade toda. Que nada. Manteve a tranqüilidade até quando soube que o
ex-marido estava casado com outra mulher, com quem teve mais filhos. Quando o
ex-marido morreu, deixou também a segunda família à míngua. A senhora foi até
lá e pegou os outros filhos do ex-marido para criar. Ela perdoou a traição e
seguiu
em frente. Ainda
bem, senão eu não estaria escrevendo este texto aqui hoje. Essa velhinha é a
minha bisavó, que viveu até os 93 anos, tempo suficiente para deixar para os
bisnetos um exemplo claro de que perdoar vale, sim, a pena.
Sabe
por que? Porque o perdão é uma ferramenta necessária para a evolução da
humanidade. No século passado, a França brigou com a Inglaterra, que lutou
contra a Alemanha, que guerreou com os Estados Unidos, que bombardearam o
Japão, que atacou a China, que teve rusgas com a Rússia. E nem por isso o mundo
parou – graças ao perdão. Claro, há interesses bem concretos que ajudam a
explicar por que um país não corta relações com o outro. Mas a mágoa, quando
fica, acaba servindo de desculpa para novas guerras. E as nações, se ficam
isoladas, progridem mais devagar ou simplesmente não evoluem.
Entre
as pessoas ocorre coisa parecida. Com o perdão, o conflito é superado e a vida
continua – em outras sintonia, mais leve e melhor. Não é só uma questão de
generosidade, embora ela seja bem importante. É questão de admitir que todos
erram, às vezes sem intenção, às vezes por pura fraqueza. E saber que,
concedendo o perdão, você tem muito a ganhar, inclusive do ponto de vista de
seu bem-estar emocional e físico.
Oferecer a outra
face
Nas
religiões, a idéia de perdoar é bem antiga – apareceu antes mesmo do
cristianismo. “Dentro do velho judaísmo, as doenças eram vistas como
conseqüência do pecado de alguém da família, que podia ser perdoado por Deus”,
diz o teólogo e padre católico Edélcio Serafim Ottaviani. Hoje, o ato de
perdoar, para os judeus, não é exclusivamente divina, mas continua sendo
central na religião. “No Yom Kippur, o Dia do Perdão, a gente jejua e faz uma
manifestação de remorso pelo que fizemos de errado. É o dia mais importante do
calendário judeu, porque é impossível viver sem perdão”, diz o rabino Henry
Sobel, presidente do rabinato da Congregação Israelita Paulista. “Antes de
pedir perdão a Deus na sinagoga, temos a obrigação de pedir perdão aos nossos
semelhantes. Deus perdoa somente quando nós perdoamos uns aos outros”, afirma.
No
catolicismo, que herdou parte da doutrina judaica, o perdão está em uma das
principais orações repetidas pelos fiéis, o pai-nosso: “Perdoai-nos as nossas
ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. Mesmo assim, é mais
comum encontrar um católico pedindo perdão a Deus do que oferecendo perdão a um
vizinho briguento. Os cristãos ensinam que, para quem pede perdão, é
indispensável o arrependimento sincero. “Não basta admitir superficialmente as
próprias faltas e ser perdoado, é preciso também fazer um ato de ressarcimento,
a penitência, que relembre o pecador da gravidade de sua falta”, diz o padre
Edélcio. Para quem perdoa, a generosidade é indispensável – até para oferecer a
outra face.
Nas
religiões orientais, como o budismo, o perdão é mais humanizado, porque as
fraquezas humanas são consideradas parte do jogo. “Todos nós somos entes
profanos. Temos que nos aceitas uns aos outros com nossas mazelas”,diz o monge
budista Ricardo Mário Gonçalves. Assim, perdoar outra pessoa também é uma forma
de admitir – e assimilar – nossos próprios erros.
Na
prática, seguir a ética das religiões não é tão fácil assim. “A gratidão e o
perdão são sentimentos de pessoas muito nobres, que estão disposta a compreender
a outro”, diz o psiquiatra Wimer Bottura Junior, diretor científico da
Associação Brasileira de Medicina Psicossomática. Haja desprendimento, se você
pensar o perdão só como uma questão de ser boa-praça ou de seguir preceitos
religiosos. Por isso, você não vai encontrar neste texto nenhuma frase do tipo
“perdoar é simples, basta tentar”. Aprender a perdoar está na lista das tarefas
complicadas, que exigem dedicação, mas que trazem aquele gostinho especial das
empreitadas difíceis: leveza de espírito, alívio, paz e até benefícios para a
saúde. Quer tentar?
Ira inicial
Você
estava tão empolgado com aquele novo plano de vendas que contou a um colega sua
brilhante idéia. E, antes que você percebesse, o tal colega foi ao chefe e
apresentou o projeto como se fosse dele. O que fazer? Começando pelo começo:
bote para fora a raiva. Sim, é normal sentir raiva, esse sentimento feio que
tentamos esconder sempre que dá. Desabafe, grite, chore e conte para alguém de
confiança, como sua mãe, seu marido ou sua namorada. Fingir que nada aconteceu
e guardar a ira só para você não ajuda em nada. “Há dois tipos de raiva. Uma
fica dentro de mim me remoendo e me paralisando, e a outra me impulsiona para a
reação”, diz a psicóloga Adriana Carbone, de São Paulo. Esse segundo tipo é que
vai ajudar a superar a sensação de ter sido enganado.
Em
um segundo momento, quando a poeira tiver baixado um pouco, é hora de relembrar
a história e tentar entender, tintim por tintim, o que aconteceu. É bom
recordar os fatos sem se vitimizar ou demonizar a pessoa que magoou você. “Se a
pessoa precisa perdoar alguém,é porque se sentiu agredida. É preciso, então,
pensar: eu fui mesmo agredido ou só me senti agredido? Porque muitas vezes as
pessoas se sentem agredidas sem terem sido de fato”, diz Wimer. Outra dica é
dosar sua expectativa em relação aos outros. “Muitas vezes, as pessoas magoadas
acham que os outros não cumprem as suas expectativas. Mas ela pode ser uma
pessoa que espera demais. Assim, com freqüência os outros não vão corresponder.”
E
nada de se colocar no papel de coitadinho – é preciso assumir também sua
parcela de responsabilidade na tal história que tanto o chateou. “Perdoar o
outro que me magoou é reconhecer em mim onde foi que eu negligenciei”, diz a
psicóloga Adriana Carbone. “No geral, alguma coisa eu fiz ou deixei de fazer
para que o outro fizesse o que me chateou. Se eu dei confiança demais para uma
pessoa e ela abusou, não é apenas porque ela é uma traíra, mas também porque eu
dei espaço.” Mas atenção: chamar a responsabilidade para si é diferente de se
culpar. “Se você olha para dentro de si, naturalmente vai enxergar uma série de
limitações. A partir de uma autocrítica profunda, você aumenta sua dose de
autoconsciência e vai dissolvendo seus erros”, diz o monge Ricardo Gonçalves.
Muita
calma nessa hora, porque esse processo pode levar algum tempo e é incômodo –
nem sempre é agradável reconhecer que também deslizamos e abrimos uma brecha
para que a agressão acontecesse.
Ver o outro lado
Depois
que já relembrou a situação e entendeu direitinho seu papel, vale a pena
dedicar um tempo para refletir sobre a atitude de quem feriu você. “Pode
parecer piegas, mas tenho que enxergar as semelhanças e as diferenças entre mim
e o outro, para ter uma multiplicidade de visões”, diz Adriana Carbone. É a
velha história de se colocar no lugar do outro.
Foi
o que fez a secretária Kelly Ramos com o motorista bêbado que a atropelou
quando ela tinha 15 anos. “Fiquei sabendo que ele era bicheiro e já tinha sido
preso. Fiz um esforço para pensar no lado dele. Eu não sabia o que esse homem
passava, devia ser tão infeliz”, relembra. Quando ela foi aos tribunais para o
julgamento do agressor, já o tinha perdoado. Ninguém se iluda: não foi de uma
hora para outra. Ela admite que por um bom tempo sentia raiva do motorista, mas
conseguiu superá-lo ao pensar que aquela ira toda não a levaria a lugar algum.
Mesmo após perdoar o motorista, ela levou o julgamento até o fim, pois não
queria que outras pessoas acabassem sob as rodas do “barbeiro” inconseqüente.
O
perdão de Kelly não significa que ela tenha esquecido a gravidade do acidente.
“Perdoar não é esquecer. Isso seria negar sua história de vida, perder sua
realidade”, diz o psicólogo Alexandre Rivero. Também é importante perceber que
o principal beneficiado é sempre aquele que perdoa – é ele quem ganha paz ao
tirar o peso da mágoa de seu coração.
Kelly
não esperou o motorista pedir perdão para perdoá-lo. E muitas vezes as pessoas
que nos magoam não pedem perdão mesmo. Nesse caso, elas podem simplesmente nem
ter se dado conta de que nos machucaram ou são simplesmente inseguras. “Algumas
pessoas se sentem fragilizadas e não conseguem assumir que são um ser em
construção. O problema é que, quando a pessoa está vulnerável, ela fica mais
rígida e arrogante. Quando a pessoa passa uma imagem muito inatingível, por
trás dessa imagem existe um medo muito grande de ser percebido com frágil”,
afirma Alexandre Rivero.
Agora,
vamos combinar: não é o caso de se policiar e querer perdão por tudo. Nos
pequenos atrasos ou deslizes cotidianos, um pedido desculpas resolve. Sim,
preste atenção na maneira como muito de nós usam as duas expressões, com
significados ligeiramente diferentes. Perdão em geral se aplica a coisa mais
sérias, que exigem uma reflexão – e uma superação – mais elaborada. Desculpas
são, digamos, algo mais light. “Pedir desculpas é pedir que a culpa seja
atenuada ou eliminada”, esclarece o psicólogo Antonio Carlos Amador Pereira, da
PUC de São Paulo.
É
bom ter em mente que, em princípio, tudo pode ser perdoado. Mas é claro que
isso exige que cada um flexibilize seus limites pessoais e esqueça palavras com
“nunca” ou “sempre”. Para perdoar de verdade, abra mão de preconceitos e idéias
empoeiradas. “Não há nada que não possa ser perdoado, mesmo o assassinato de
crianças ou as atrocidades do holocausto. O que acontece é que algumas pessoas
têm mais facilidade para perdoar do que outras”,diz o psicólogo Frederic
Luskin, da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos. E, pode reparar, em
matéria de perdão, quanto maior o esforço, maior o ganho.
Lições para o
futuro
Extrair
ensinamentos positivos daquilo que até pouco tempo atrás parecia uma tragédia é
o passo seguinte é o passo seguinte. Lembra do colega que, vamos dizer, se
adiantou a você na empresa? Talvez você agora veja que precisa ser mais
discreto no ambiente de trabalho ou que deve escolher melhor com quem partilhar
esse tipo de informação. É assim que o trauma é superado: deixando de olhar o
passado e usando o aprendizado para situações futuras. Isso não significa
esquecer o que ocorreu, mas interpretar de outra forma.
Mais
uma vez, há algumas dicas para saber se no fundo, no fundo, o rancor já passou.
Primeiro,verifique se você ainda tem raiva ou se deseja se vingar do agressor.
Se a resposta for sim, ainda que discretamente, você ainda não chegou lá.
Deliciar-se com a punição do outro também não é um bom indicador do perdão
sincero. Se você rolou de rir quando o colega que passou a mão na sua idéia foi
mandado embora, você é normal, tudo bem, mas ainda está preso ao episódio. A
indiferença também não resolve. “Se a pessoa que te magoou não significa nada
para você, é sinal de que você ainda não perdoou”, diz Adriana Carbone.
O
ideal é que ambos, vítima e agressor, se considerem no mesmo patamar. A
terapeuta familiar Maria Amália Faller Vitale, professora da PUC de São Paulo,
ilustra a situação com uma metáfora: o agressor tem uma dívida moral com a
vítima. Se a vítima nunca o perdoar, vai continuar sempre endividado, com uma
conta impagável. “O perdão se traduz em uma ação que permite o reequilíbrio em
uma relação”, diz Maria Amália. Mas essa é uma conta diferente, pois o
pagamento da dívida depende do credor, e não do endividado.
E a reconciliação?
Terminada
a hipoteca, cabe a você decidir se quer se reconciliar com quem feriu. “O
perdão não significa que eu vá voltar a me relacionar com a pessoa. SE ela faz
coisas que não me agradam, eu me afasto”, diz o psicólogo Alexandre Rivero.
“Você consegue reconhecer o perdão quando você se sente feliz com você, mesmo
antes de se sentir melhor com o outro”, completa Adriana Carvone.
O
teste final para saber se seu coração perdoou mesmo o agressor é, segundo a
receita do psicólogo Frederic Luskin, recontar o episódio depois. Se de repente
você perceber que deixou a ser a vítima coitadinha e passou a ser uma espécie
de protagonista da sua própria história, alguém que enfrentou a mágoa e ainda
conseguiu ficar em paz consigo mesmo, você pode acreditar que encontrou o pote
de outro atrás do arco-íris. “O perdão é uma coisa difícil, quase impossível,
mas, quando eu perdoei, foi como se um anjo tivesse tirado um peso do meu
coração. E ficou tudo azul”, diz Kelly, depois de ter superado a raiva por seu
atropelamento.
Os
benefícios não param por aí. A saúde também sorri para quem perdoa. “A falta do
perdão gera mágoa e sentimentos que deixam feridas abertas dentro das pessoas.
Quando falamos em perdão, falamos em fechar feridas. Há pesquisas que mostram
que há pessoas com câncer que são ressentidas, com muitas mágoas”, diz o
psiquiatra Wimer Bottura. Mais específico ainda, um estudo publicado por Fred
Luskin mostra que quem exercita o perdão fica menos nervoso, menos estressado,
tem maior vitalidade física, e, ufa, mais confiança na sua capacidade de lidar
com os problemas da vida.
Na
época da minha bisavó, não existia nenhuma dessas pesquisas. Mas hoje, sabendo
de tudo isso, dá para desconfiar que perdoar tem algo a ver com ela ter vivido
tantos anos.
PARA SABER MAIS
O Poder
do Perdão, Fred Luskin, Novo Paradigma
NA INTERNET:
Conheça os movimentos
internacionais pelo perdão, que têm sites em inglês, e histórias que podem
servir de inspiração para você.
www.revistavidasimples.com.br
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